Aula 6: Introdução à Fé Cristã

O objetivo desta seção de aulas intitulada Formação Teológica é inserir você, caro diácono, nos principais assuntos da fé cristã, como que fazendo um brevíssimo compêndio de nossa fé. Faremos isto não só para que você perceba um pouco da grandeza da teologia, mas, sobretudo, para prepará-lo para o anúncio de Jesus Cristo. A nossa fé cristã, católica, está inserida no Símbolo da Fé, chamado credo ou creioSim, "nossa" fé. Não cremos sozinhos. Cremos com a fé da Igreja. E qual é a fé da Igreja?

Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor; que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu na Virghem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos; creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. 
  
 
6.1 Deus é amor

O próprio Deus é a fonte inesgotável de amor. Essa verdade fundamental é confirmada na Primeira Carta de João (1 João 4, 8), que nos recorda que "quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor". A compreensão desse amor divino é uma jornada que nos conduz a um relacionamento profundo e íntimo com o Criador. Ao criar a humanidade à Sua imagem, Deus concede-nos a capacidade de compartilhar Seu amor com nossos irmãos e irmãs, tornando-nos colaboradores em Sua obra divina.

Nós cremos em um só Deus que é ao mesmo tempo uno e trino, a Santíssima Trindade. É um só Deus, mas são três a pessoas divinas. Deus é Pai e Filho e Espírito Santo. Santo Atanásio explica isto em sua versão da profissão de fé, onde afirma:

A fé católica consiste em adorar um só Deus em três Pessoas e três Pessoas em um só Deus. Sem confundir as Pessoas nem separar a substância. [...] Assim o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. E contudo não são três deuses, mas um só Deus. [...] E nesta Trindade não há nem mais antigo nem menos antigo, nem maior nem menor, mas as três Pessoas são coeternas e iguais entre si.

Ainda difícil de entender? Preste atenção na imagem abaixo:


É deste modo que cremos num Deus uno e trino: a Santíssima Trindade. As pessoas não se confundem, não se misturam, mas não são três deuses e sim um único Deus. Ainda antes do tempo ser tempo, o Pai gerou o Filho e do Pai e do Filho veio o Espírito Santo, não num ato de criação e nem de geração. 

6.2. Salvação em Jesus Cristo

O amor de Deus é eterno, e mesmo diante das escolhas humanas que conduziram à queda e ao pecado, Seu amor não vacila. pecado é uma transgressão ou desobediência à vontade de Deus, expressa por meio de suas leis e mandamentos. Deus criou os seres humanos com liberdade de escolha, e essa liberdade inclui a capacidade de agir contra a vontade divina. O pecado não apenas afeta o relacionamento do indivíduo com Deus, mas também pode causar danos às outras pessoas e à comunidade em geral. A liberdade de escolha torna os seres humanos responsáveis por suas ações, e o pecado é visto como uma escolha consciente que quebra a harmonia com Deus e com o próximo.

Um conceito importante para nós é o entendimento do pecado original, baseado em Gênesis 3. A humanidade herdou uma condição de pecado desde o início dos tempos, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus, comendo o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Esse ato de desobediência resultou em uma ruptura no relacionamento entre a humanidade e Deus, uma mancha na natureza humana e uma propensão inata para o pecado. Assim, todos os seres humanos nascem com essa herança de pecado original, precisando de redenção e purificação.

A necessidade de um salvador é uma consequência direta do pecado original e da natureza pecaminosa da humanidade. Por conta do pecado, a humanidade não poderia restaurar por si só sua relação com Deus. De fato, a consequência do pecado é a morte. Portanto, foi necessário um salvador, Jesus Cristo, que assumiu o peso do pecado original. O pecado trouxe ruptura em nossa relação com Deus, mas Ele, em Sua infinita misericórdia, não nos abandonou à nossa própria sorte. Pelo contrário, prometeu enviar um Redentor, um Salvador que nos libertaria do pecado e nos reconciliaria com Ele. 

A encarnação de Cristo é o ápice do amor de Deus em nossa história, pois Ele se tornou um de nós, assumindo a nossa humanidade. Jesus Cristo é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, a pessoa do Filho, que assumiu a nossa natureza humana, pois "o que não é assumido, não pode ser remido" (São Gregório Nazianzeno). A culpa do pecado era tão grande e ofendeu ao Deus Eterno que somente o próprio Deus poderia reconciliar a humanidade com Ele. 

O Filho, então, entra na história humana, por ação do Espírito Santo, no ventre da Virgem Maria e se faz homem. Jesus se faz homem em tudo como nós, menos no pecado. Mas, mesmo não tendo pecado, Ele assume a consequência do pecado: a morte. Jesus Cristo é, de fato, ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A Salvação em Jesus Cristo é o núcleo da fé cristã. A salvação está em todos os momentos da vida de Jesus, incluindo Sua pregação, paixão, morte, ressurreição e ascensão. A paixão, morte e ressurreição de Jesus consistem no ponto central do mistério da Salvação. Sua morte na cruz é vista como um ato de expiação vicária, ou seja, o próprio Jesus assumiu para si a morte a qual toda pessoa humana estava condenada e pagou a pena dos nossos pecados, reconciliando-nos com o Pai. Com a ressurreição de Jesus, através de Sua vitória sobre a morte, Ele venceu o poder do pecado e abriu o caminho para uma vida nova em comunhão com DeusPor fim, com a ascensão de Cristo, Ele retornou à glória do Pai, inaugurando Sua presença contínua através do Espírito Santo. 

6.3 O Espírito Santo

É o Espírito Santo que foi enviado sobre os apóstolos após a ascensção de Jesus, no dia de Pentecostes.  O Espírito Santoinspirou as Escrituras e a Tradição; assiste o Magistério da Igreja; nos põe em comunhão com Cristo na liturgia sacramental, através de suas palavras e símbolos; interce por nós em oração; edifica a Igreja nos carismas e ministérios; manifesta sua santidade e continua a obra da salvação no testemunho dos santos e de todas as pessoas que buscam ser fiéis a Deus.

6.4 Deus é mistério: fé e Revelação.

Para que tudo isso faça sentido para nós, precisamos ter fé. Ter fé é um ato pessoal de confiança e adesão a Deus. A fé é uma resposta livre e consciente ao chamado divino, em que o indivíduo reconhece Deus como o Criador e Salvador e aceita Sua revelação através das Escrituras e da Tradição da Igreja. A Revelação Divina é o ato pelo qual Deus se comunica e se revela aos seres humanos, ela é um dom gratuito de Deus aos homens, por meio do qual Ele se faz presente e se comunica com sua criação.

Deus é mistério. E não o deixa de ser, embora se deixe conhecer pela Revelação. A Revelação é progressiva e culmina na pessoa de Jesus Cristo. Através das Sagradas Escrituras (a Bíblia) e da Tradição Apostólica, a Revelação Divina é transmitida de geração em geração, permitindo que os cristãos conheçam Deus, sua vontade e o caminho para a salvação. Ou seja, Jesus Cristo é o Revelador e nele culmina toda a Revelação. 

A fé é essencial para a vida cristã e a salvação. É através da fé que os fiéis são justificados e recebem a graça de Deus. A fé também é um chamado à missão e ao serviço ao próximo, inspirando a ação caritativa e a busca pela justiça e paz no mundo. De fato, a fé deve traduzir-se em obras:  "Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras." (Tiago 2, 17-18).

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